oi, . tudo bom?
fiquei fora um tempão por causa do mestrado. tinha deixado essa crônica escrita, mas não consegui revisar até hoje. hoje eu consegui e aqui eu falei de abrir a geladeira por cima, puxar a cordinha do ônibus e ter uma namoradinha na adolescência. mas obviamente essa crônica é sobre outras coisas etc., etc.
principalmente etc.
novamente, quase nenhuma revisão.
agora, a crônica.
ei-la.
— quando era criança, eu achava que eu teria a altura ideal para um adulto quando conseguisse abrir a geladeira pela parte de cima da porta sem precisar de ajuda ou ficar na ponta do pé. quando eu alcancei de fato essa altura, percebi que não tinha a altura que se espera de um homem adulto e tampouco era adulto mesmo. não sou alto, mas tudo bem porque essa marca de amadurecimento provavelmente foi estabelecida quando eu tinha 4 ou 5 anos de idade.
eu lembrei dessa anedota idiossincrática porque uma trend de pegar fotos de 2016 apareceu nas redes sociais e eu achei a ideia legal, mas olhando no meu celular e nas nuvens que tenho conta, não tinha nada tão antigo assim. daí eu lembrei de uma um dropbox perdido da época da faculdade e, fazendo os cáculos, poderia ter algo de 2016 lá.
fui atrás. recuperei senha de um email pré-histórico que eu não usa há muito tempo e consegui acessar as fotos pra encontrar algo que eu não estava procurando.
de vez em quando eu andava de ônibus com a minha mãe e achava muito legal ver as pessoas puxando a cordinha pra dar o sinal. os joana d'arc (empresa de ônibus da minha vila) daquela época quase não tinham os botõezinhos nos apoios pra mão, então a maioria das pessoas tinha que se esticar pra puxar a cordinha no alto mesmo. eu não alcançava. acho que os adultos que iam de ônibus comigo às vezes me erguiam pra eu poder puxar a cordinha, mas não tenho certeza se essa memória é real ou inventada, talvez eu pergunte pra minha mãe um dia.
quando eu era criança, eu achava que teria a altura ideial de um adulto quando tivesse altura o suficiente pra puxar a cordinha do ônibus. eu também havia estabelecido que jamais apertaria os botõezinhos que ficavam nas colunas metálicas de apoio quando alcançasse a cordinha.
fui navegando pelas fotos do dropbox perdido no tempo apenas para constatar que eu quase nunca tiro foto de nada e, quando tiro, quase nunca apareço. tem muitas fotos de outras pessoas que, inclusive, são da família da minha esposa (o pessoal da minha família integra uma parte ainda menor das minhas fotos. não são gente de foto.). tem uma ou outra foto da minha esposa, mas poucas — ela inclusive reclama que eu não estou produzindo material suficiente pra o velório dela (não tô preocupado com isso porque obviamente eu vou morrer primeiro). enfim, quase não tinha foto da minha cara. mas tinha muitos prints: tuítes antigos, conversas com pessoas com quem eu nem falo mais, gente que eu simplesmente perdi contato, gente que virou católico, gente que virou nazista (eu acho, não tenho como/e não quero confirmar).
passava das 22h e eu tava esperando o ônibus pra ir pra casa depois de mais um dia de aula na 3ª série do ensino médio. G., uma menina da 1ª série, sentou do meu lado no ponto de ônibus e fez comentários homofóbicos sobre o professor de filosofia. a gente começou a conversar. eu demorei uns dias pra perceber que ela tava interessada em mim. a gente pegava o mesmo ônibus. uma vez, eu evitei apertar o botãozinho pra dar o sinal no ônibus e levantei estabanado pra puxar a cordinha acertando minha mochila na cara de G. — por essas e por outras, não foi pra frente. G. gostava de cavalos também e isso era um problema pra mim, não sei bem por quê.
quando eu era criança, eu achava que teria uma namoradinha quando fosse adolescente, mas eu preferi puxar a cordinha do ônibus em vez de apertar o botãozinho do sinal.
por fim, nunca cheguei a encontrar uma foto pra participar da trendzinha 2016/2026. mas encontrei toda uma cartografia de outra vida. antes de me formar na faculdade, me casar, ter filhos, ganhar coisas, perder coisas, perder pessoas, perder pessoas, etc. etc. enfim…
quando eu era criança, eu achava que ia achar a vida mais legal no futuro. minha busca pelo joão de 2016 me lembrou que em algum momento eu esqueci que eu achava isso quando era criança.
ATT, Jv
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