casa nova, velhas ideias 🏠💡

Nov 24, 2025 9:31 am

na newsletter de hoje:


  1. saindo do substack;
  2. (mais) divagações sobre escrever;
  3. uma breve crônica sobre ser parvo



1

tem tempo que eu não escrevo e tem tempo que eu quero escrever. quer dizer, fora dos fichamentos, artigos, apresentações no canva e toda a parafernália do mestrado (que eu amo, não se engane; mas, infelizmente, consome todo o tempo em que eu normalmente estaria procrastinando escrevendo esses textos).


só agora que tento voltar. a morte, já há alguns meses, do substack na minha cronologia pessoal, também influenciou bastante nessa pausa da escrita que antecedeu esse retorno.


o substack morreu de vez pra mim no mesmo dia da morte do Luís Fernando Veríssimo, quando fiz um note prestando homenagem ao Cronista (eu que chamo minhas newsletters de crônica) e os dois primeiros comentários foram:


quem é esse aí que tá todo mundo falando?”; e


era bom antes de ser militante PTista”.


fiquei puto e com uma preguiça imensa de continuar ali — que já não era legal.


flertei brevemente com o leaflet na esperança de sair uma ferramenta de newsletter, mas não rolou. enfim, fechei o substack e trouxe meus textos pra cá.


a “casa” é “nova”, mas as ideias são as mesmas de sempre.



2

vou tentar escrever semanalmente, porque sinto falta disso.


isso vai exigir adaptações, pois família, trabalho, mestrado etc. etc. etc. então, provavelmente, o que vai vir pra cá vai ser menos estruturado, menos revisado e, provavelmente, o que der pra simplesmente copiar e colar das notas do iphone.


esses dias, vi um posto do Rodrigo Geraldi (vai ver os cartuns dele no Instagram) falando que o desafio de verdade da criatividade não tá tanto na execução, mas no olhar. observar o cotidiano e transformar o corriqueiro em no interesse de alguém é que é o bicho.


ele, inclusive, é muito bom nisso. eu, talvez, já tenha sido melhor.


a tentativa aqui é recuperar a (suposta) forma.



3

por exemplo, fiquei pensando esses dias que existe um tipo de honestidade que só a alienação pode trazer.


me ocorreu isso enquanto estava na sala de aula com meus alunos do ensino médio. o ano praticamente acabou, faltam pouquíssimas avaliações a serem feitas e, numa sexta-feira mais lenta, I. falou que tem curiosidade de saber o que que passa nos meus fones de ouvido. aí eu abri meu Spotify no data show da sala pros meninos.


algumas coisas eles já imaginavam, mas ficaram surpresos quando viram Sabrina Carpenter na minha playlist, por exemplo.


mas o momento que quero de fato narrar nessa parte, foi quando um aluno viu Heather de Conan Gray e falou que era uma música muito legal. eu concordei, mas disse que ela tinha uma vibe meio adolescente demais pro meu gosto e que agora eu tava confirmando isso.


inclusive, talvez eu gostasse um pouco menos da música.



4

falei como piada. rimos, mas depois fiquei pensando em como essa música me veio no aleatório e eu nunca a associei com mais nada — um filme, uma série, um livro, um grupo social. apenas a ouvi, achei a narrativa e a sonoridade interessantes e bati no “curtir” do spotify.


eu honestamente havia gostado de Heather porque não tinha recebido nenhum estímulo para gostar ou desgostar e julguei bom pro meu gosto. tava fazendo um julgamento baseado apenas nas ideias que eu já tinha e naquilo que a canção estava me apresentando.


não pude deixar de duvidar que outros itens das minhas adesões e desabonos tenham chegado até mim com a mesma honestidade.


quanta coisa não foi estimulada por algum preconceito, trauma, alguma experiência (única e) ruim?



5

não que eu queira alimentar a ideia de uma “razão pura”.


todas essas ideias eu só alcanço pela linguagem. na linguagem tudo é contexto e nada é apriorístico.


ainda assim, Heather chegou de maneira mais aleatória e gerou uma carga de avaliação aparentemente menos carregada. o que me faz questionar se não seria possível assumir uma postura mais heraclitiana nesse sentido e adotar os acontecimentos como únicos — nem é o mesmo rio e nem é a mesma pessoa mergulhando nas águas.


há uma "inocência" que me atrai nessa falta de julgamento. não “inocência” no sentido de pureza moral, uma inocência num sentido religioso. mas, carregando a mesma ideia do Parvo do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente (ironicamente, uma peça teatral religiosa).


Parvo é o personagem tolo, que consegue escapar da nau capitaneada pelo Diabo rumo à Condenação, embarcando na nau do anjo para a Salvação. não salvo por mérito, por boas obras, por ser esperto. não fez como na música e enganou o diabo.


morreu de caganeira e nunca soube o suficiente para que fosse condenado de nada.


alcançou o bem, não pelo que conhecia, mas justamente por não saber.


ATT, JV

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