fim de ano: uma breve retrospectiva da falha
Dec 08, 2025 2:42 am
oi, você:
na newsletter de hoje temos:
- bads de fim de ano;
- oversharing homeopático;
- a praia é emotiva.
agora, o texto.
ei-lo.
1.
quando eu tava passando na frente da praia de camburi num dia chuvoso, lembrei de A., um amigo da adolescência que falou comigo uma vez: "a praia é emotiva". eu roubei essa frase pra virar título do meu tumblr.
será que o rubem braga teria um tumblr? ou o luís fernando veríssimo? fiquei pensando nisso enquanto o transcol virava na dante michelini.
eu tava em vitória por causa de um congresso do mestrado. fiquei a semana toda esperando acontecer alguma coisa pra eu não escrever essa frase ou esse texto a partir da perspectiva do mestrado, mas a quem eu tô tentando enganar. desde março, a universidade é uma onipresença na minha vida. onde eu vou, o que eu vou fazer, quais são as minhas prioridades, que trabalhos de revisão de texto eu vou aceitar (inclusive, estou aceitando trabalho), enfim tudo pautado por ela.
mas, enfim. sigamos.
2.
o falecido tumblr "a praia é emotiva" surgiu de uma viagem com A. pra praia. eu tinha 17 pra 18 e ele devia ter 14 pra 15 ou algo do tipo. o pai dele deixou a gente na casa de praia uma noite pra ir com o restante das pessoas e coisas no outro. a gente só tinha que dormir lá e esperar. jantamos leite com toddy em copo sujo e biscoito recheado. não dava pra lavar nada porque a água que saía da torneira tinha a mesma cor do leite com toddy. estávamos lá com colchão, roupa de cama, um play 2 e um sonho. acho que foi a primeira vez que eu viajei sem ninguém da minha família.
libertador, mas tinha seu preço. ninguém pra me lembrar de passar protetor solar. fiquei com umas queimaduras de sol muito esquisitas no braços. eu quase não entrava na praia. eu não curto praia. na sombrinha em um dia, meu braço esquerdo ficou pro lado de fora. no outro dia, o direito. enfim, queimaduras desiguais.
se A. não tivesse dito que a praia era emotiva, talvez a viagem tivesse sido completamente em vão. eu queria ter dado uns beijinhos e, obviamente não rolou. um amigo nosso, mais velho, na casa dos 20, porém, acabou ficando com uma moça bem mais velha. o que tornou o rolê todo meio desconfortável.
3.
o fim do ano é tipo quando você vai lavar a mão vestimdo moletom. aí você esquece de puxar a manga e a água dá uma encostada na barra, deixando meio úmido. incomodando. mas não dá pra tirar a blusa porque tá frio.
os finais de ano são incômodos esquisitos. no ano passado, eu escrevi uma crônica de fim de ano fazendo com uma retrospectiva do Vasco, que tinha acabado de ser eliminado na semi-final da copa do brasil com um gol do detestável hulk, vulgo atacante mais antipático do futebol brasileiro.
eu fiquei alguns dias escrevendo e revisando o texto enquanto protelava um ensaio pra minha entrevista do mestrado (olha ele aí de novo). às vezes eu ficava me sentindo mal por estar procrastinando algo importante pra escrever crônica sobre o Vasco — imagina quando o eu do passado descobrir que a crônica acabou excluída junto com o substack (esqueci de guardar os textos) e eu acabei passando na entrevista do mestrado também. terminei 2024 com algumas expectativas* para 2025, mas decidi não falar nada.
a última vez que ousei pronunciar "esse vai ser meu ano" foi 2020…
mas o fato é que estou animado pra 2026. falei isso pra B. esses dias e ela disse que isso era novo. nunca tinha me visto animado para um ano que vai começar. são 13 anos de casados, uns 15 de convivência.
de vez em quando ela diz umas coisas assim.
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*leia-se "múltiplas crises de ansiedade"
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4.
num outro fim de ano, em 2011 ou 2012. tive um diálogo com a B., em feira de santa - ba um dia antes de ir pra rodoviária e voltar pra casa.
"você nunca tá bem de verdade"
"mentira"
"e como é que você tá?"
"eu tô bem, mas não sei… tem alguma coisa errada"
de vez em quando ela diz umas coisas assim.
no outro dia me deixaram na rodoviária pra voltar pra casa sozinho. não tinha vaga no carro ou algo do tipo. acho que, até então, eu nunca tinha ficado realmente sozinho no meio de tanta gente, a rodoviária de lá é enorme.
quando começou a tocar the scientist, uma música que eu gosto, apesar de ser do coldplay, lembrei de um amigo muito distante, e foi bem ruim.
aquela viagem toda perto do revéillon foi uma viagem bem ruim.
5.
essa coisa de "ano novo/vida nova" e resoluções e não sei mais o quê nunca fez muito sentido pra mim, porque eu queria recusar o tempo e a forma que uma parcela considerável do ocidente escolheu pra marcá-lo. a princípio incidentalmente, depois com um bocadinho mais de método, essa crônica reuniu episódios de fim de ano. da famigerada bad que bate.
vou pedir licença pra descontextualizar Marx aqui, mas é aquelas: "tudo acontece duas vezes […], primeiro como tragédia, depois como farça."