nós, pessoas meio frankenstein ⚡️
Dec 01, 2025 9:31 am
oi, você:
na newsletter de hoje temos:
- frankenstein e seu monstro 👨⚕️
- música popular árabe 🎵
- pessoa(s) 👦👧🧔🧑👵👴👩👨
agora, o texto.
ei-lo.
1.
saiu o novo frankenstein na netflix e eu fui fazer o que qualquer pessoa normal faria. assistir o de 1931. encontrei fácil no archive.org (inclusive um dos melhores lugares da internet). aproveitei e salvei o young frankenstein do mel brooks também.
acabou que eu vi o frankenstein do del toro priemiro e, entre um cochilo e outro, achei bom. eu gosto da estética do del toro — ele espelha o bizarro no bonito e vice-versa. a tentativa de vencer formas maniqueístas de pensar me agrada. vi algumas críticas ao frankenstein elordi bonitinho e acho que isso ainda é ressentimento sobre a barraca do beijo.
enfim, como sou uma pessoa privilegiada que não tem nada mais importante no que pensar, fiquei pensando bastante no monstro de frankenstein nos últimos dias.
2.
o aplicativo de caronas é uma das coisas que possibilita o meu mestrado. tendo que me deslocar do interior para a capital e voltar toda semana pelo menos duas vezes, as caronas ajudam demais em relação aos valores (muito mais barato que ônibus), horários e tempo gasto: tudo consideravelmente mais flexível e rápido.
eventualmente, caio em caronas xarope, passando algumas horas em silêncio ouvindo com atenção as piores playlists que os motoristas amam, ou gente elogiando "arte" feita por IA e que o pablo marçal é um cara doido, mas muito inteligente. obviamente, rola aqui um malabrismo mucho loco pra não dar a pinta de que você acha a opinião da pessoa um apanhado de bosta flamejante porque, afinal de contas, você está no carro de um desconhecido que está te levando pra um compromisso com hora marcada (riso de nervoso).
E. veio de SP visitar uma amiga no ES. foi minha carona da semana. organizou o carro pra conectar no bluetooth e perguntou se alguém tinha preferência por algum tipo de música. como nós, os caronas, meio hesitantes, fizemos aquele silêncio vago de quem não sabe exatamente o que dizer. E. disse, então, "vou colocar nas minhas curtidas aqui, mas eu tenho um gosto musical meio estranho".
eu, que tenho um gosto musical meio estranho, fiquei imaginando o que isso significaria no caso dele. perguntamos o que seria esse gosto musical meio estranho, e nada poderia ter nos preparado para a resposta.
"música árabe".
todo mundo riu e quando a viagem começou e a playlist tava rolando, realmente, entre love songs, sucessos do pop e do rap, nu metal e pagode dos anos 90, aqui e ali, apareciam a MPA (música popular árabe — ao menos, eu suponho que sejam músicas populares no líbano).
uma playlist meio frankenstein que, de alguma forma, reflete as coisas que E., que gosta bastante de conversar nas caronas, contou sobre sua vida.
3.
frankenstein, o monstro erroneamente chamado pelo nome do seu criador, é formativo pra nossa cultura. virou sinônimo da junção de várias partes diferentes que formam um todo bizarro, mas coeso.
não é difícil pensar em referências que também trazem essa ideia e reforçam a figura de linguagem. pensando rapidinho aqui, lembro de edward mãos-de-tesoura, rocky horror picture show, a noiva cadáver de tim burton, a frankenstrat (guitarra cheia de marca de cigarro e gambiarra elétrica do eddie van halen) e belatrix baxter de poor things do yorgos lanthimos. etc. etc.
tudo aí: a junção de partes originando uma uma coisa nova. uma aberração.
mas essa aberração, essa coisa nova, não é realmente nova. primeiro, porque essa junção é feita de partes velhas, já usadas e gastas; segundo, porque o monstro é a conhecida forma humanoide — a guitarra do van halen foge à essa regra, claro, mas, ainda assim, sua junção de outras partes não cria um outro instrumento, aquilo é definitivamente uma guitarra.
4.
há ainda uma terceira característica ali. a falta de malícia de quem, literalmente, nasceu ontem — a inocência da criatura desvela o cinismo do seu criador e também o da audiência.
marcas do romantismo gótico que busca um novo Adão, um homem idealmente bom, o homem que ainda não foi corrompido pela sociedade de rousseau, o bom selvagem de daniel defoe, o herói indígena de goncalves dias. o mais próximo possível da "amoralidade".
5.
em "verdade e mentira no sentido extramoral", nietzsche fala da criação de conceitos a partir da ignorância daquilo que é inerentemente singular nas coisas.
ignoramos que cada folha de uma árvore é diferente da outra para chamarmos todas as folhas de "folha".
ignoramos que a rosa e o crisânteno sejam flores completamente diferentes pra dar a ambas o nome de "flor".
ao monstro de frankenstein, porém, o título de "pessoa" é recusado. suas singularidades não podem ser ignoradas pra que ele caia no conceito de pessoa. a identidade da criatura não é a mesma da nossa.
identidade essa que, por sinal, costuma ser (mal) compreendida como aquilo que é único, original. mas, na verdade, a palavra tem mais a ver com aquilo que é "idêntico". não à toa, identificar-se com algo é perceber o que há de parecido, é ver em si o que está em outro lugar e vice-versa. frankenstein, o monstro de frankenstein, E., eu, você, sua professora de ciências da quinta série que te chamava só pelo sobrenome, o carona que elogia o pablo marçal e próprio pablo marçal. pessoas.
ou ainda, se ignorarmos as diferenças inerentes a cada ser: pessoa.